Quando a Igreja Católica declara alguém santo, o que realmente aconteceu?
A Igreja fez aquela pessoa se tornar santa?
Quantos milagres são necessários?
Um mártir precisa de milagre?
Qual é a diferença entre Servo de Deus, Venerável, Beato e Santo?
E quem decide se uma cura realmente pode ser considerada milagrosa?
O processo de canonização é muito mais cuidadoso do que pode parecer.
Ele envolve investigação histórica, documentos, testemunhos, análise teológica e, quando existem supostos milagres, investigação específica desses acontecimentos.
Vamos entender o processo passo a passo.
A Igreja "faz" alguém virar santo?
Não.
Esse é o primeiro ponto importante.
Para a fé católica, uma pessoa não se torna santa porque o Papa assinou um documento.
A canonização é o reconhecimento solene da Igreja de que aquela pessoa está na glória de Deus e pode ser proposta a toda a Igreja como exemplo de vida cristã e invocada em sua intercessão.
Portanto, a Igreja procura reconhecer uma realidade, não criá-la.
Todo mundo que está no Céu é santo?
Em sentido amplo, sim.
A santidade não está limitada às pessoas que aparecem no calendário litúrgico.
Podem existir incontáveis pessoas na presença de Deus que jamais passarão por um processo formal de canonização.
A canonização possui outra finalidade.
Ela permite que determinadas pessoas sejam apresentadas oficialmente pela Igreja como exemplos seguros de vida cristã.
Quem investiga uma possível santidade?
Atualmente existe na Santa Sé o Dicastério para as Causas dos Santos.
Ele trata das causas de beatificação e canonização.
Mas o processo normalmente não começa em Roma.
A primeira grande investigação acontece na Igreja local, sob responsabilidade da autoridade eclesiástica competente.
Depois, a documentação segue para Roma, onde a causa passa por novas avaliações.
Quem pode pedir a abertura de uma causa?
Uma causa possui alguém que a promove, tradicionalmente chamado de autor da causa.
Pode ser, por exemplo, uma diocese, instituto religioso, associação ou outro legítimo interessado.
A causa é conduzida por meio de um postulador.
O postulador desempenha uma função muito importante: acompanha a causa, reúne informações e trabalha para que a documentação necessária seja apresentada corretamente.
O processo começa imediatamente depois da morte?
Normalmente não.
A disciplina da Igreja prevê condições para a abertura da causa, e existem procedimentos específicos que precisam ser observados.
Um dos motivos para não agir precipitadamente é permitir que se verifique se existe uma verdadeira e persistente fama de santidade ou de martírio, e não apenas uma emoção passageira causada pela morte da pessoa.
Em situações particulares, a autoridade competente pode conceder dispensa de determinados requisitos.
O que é fama de santidade?
Não basta alguém ser popular.
Também não basta possuir muitos admiradores.
A fama de santidade significa existir entre os fiéis uma convicção consistente de que aquela pessoa viveu de maneira extraordinariamente fiel ao Evangelho e está junto de Deus.
Também pode existir uma fama de martírio, quando a pessoa é reconhecida como alguém que entregou a vida por Cristo nas condições próprias do martírio cristão.
Essa fama precisa ser espontânea, difundida e duradoura.
Primeira etapa: Servo de Deus
Quando a causa é formalmente introduzida e a investigação começa segundo as normas da Igreja, passa-se a utilizar o título:
Servo de Deus.
É importante entender:
Servo de Deus ainda não significa Beato nem Santo.
Significa que existe uma causa sendo investigada.
A Igreja ainda está examinando a vida daquela pessoa.
O que acontece na investigação diocesana?
Começa uma investigação detalhada.
Podem ser examinados:
- documentos;
- cartas;
- livros;
- escritos publicados;
- escritos não publicados;
- arquivos;
- registros históricos;
- testemunhos de pessoas que conheceram o candidato;
- informações favoráveis e desfavoráveis;
- circunstâncias de sua vida.
O objetivo não deveria ser construir uma biografia idealizada.
É procurar a verdade.
Só são ouvidas pessoas favoráveis?
A investigação deve ser séria.
O objetivo de uma causa não é simplesmente reunir elogios.
A autoridade responsável precisa procurar elementos que permitam conhecer realmente a pessoa investigada.
Isso é particularmente importante porque uma eventual beatificação ou canonização terá consequências para toda a comunidade católica.
Os escritos do candidato são analisados?
Sim.
Escritos relevantes são examinados.
A Igreja procura verificar, entre outras coisas, se existe algo incompatível com a fé e a moral cristãs.
Quando se trata de personagens históricos, especialistas podem precisar estudar grandes quantidades de documentos e compreender o contexto em que foram produzidos.
O processo pode levar décadas?
Sim.
Algumas causas são relativamente rápidas.
Outras levam décadas ou até séculos.
Isso pode acontecer por muitos motivos:
- quantidade de documentos;
- dificuldade histórica;
- ausência de testemunhas vivas;
- necessidade de pesquisas adicionais;
- complexidade da causa;
- falta de recursos;
- necessidade de aguardar acontecimentos posteriores, inclusive um possível milagre.
Não existe uma obrigação de canonizar rapidamente alguém.
O processo termina na diocese?
Não.
Depois de concluída a investigação local, os autos são encaminhados ao Dicastério para as Causas dos Santos.
Começa então aquilo que podemos chamar, de maneira simplificada, de:
fase romana.
O Dicastério verifica a documentação e estuda a causa de acordo com as normas próprias.
O que é a Positio?
Um dos documentos centrais de muitas causas é conhecido como:
Positio.
Trata-se de uma apresentação sistemática da documentação e dos argumentos relativos à causa.
Dependendo da via, ela pode tratar das virtudes, do martírio ou da oferta da vida.
Não é simplesmente uma pequena biografia.
É um trabalho técnico destinado ao exame da causa.
Existem diferentes caminhos para a beatificação?
Sim.
Esse ponto é fundamental.
Nem todas as causas seguem exatamente o mesmo fundamento.
Entre as vias atuais mais importantes estão:
1. Heroicidade das virtudes
É a via normalmente associada a uma pessoa que viveu as virtudes cristãs de maneira heroica.
2. Martírio
Quando alguém sofreu a morte por causa da fé nas condições reconhecidas pela Igreja como verdadeiro martírio.
3. Oferta da vida
Uma via específica estabelecida em 2017 para determinados casos em que alguém oferece livre e voluntariamente a própria vida por amor cristão e aceita uma morte certa e próxima.
Vamos entender cada uma.
O que significa viver as virtudes heroicamente?
Não significa que a pessoa nunca tenha cometido nenhum erro.
Santos não são necessariamente pessoas que nasceram perfeitas.
O processo examina como aquela pessoa viveu as virtudes cristãs.
Tradicionalmente são consideradas especialmente as virtudes teologais:
- fé;
- esperança;
- caridade;
e as virtudes cardeais:
- prudência;
- justiça;
- fortaleza;
- temperança.
Também são observadas outras virtudes relacionadas à condição e vocação daquela pessoa.
O que significa "heroico"?
Heroico não significa necessariamente espetacular.
Uma pessoa pode viver heroicidade cristã em uma existência aparentemente comum.
Uma mãe de família, um trabalhador, um religioso, um sacerdote, um jovem ou uma pessoa idosa podem viver virtudes em grau extraordinário.
O que se procura é uma constância e profundidade que ultrapassem uma prática cristã meramente ocasional.
Quando a pessoa passa a ser chamada de Venerável?
Nas causas baseadas na heroicidade das virtudes, depois dos exames previstos e do reconhecimento dessa heroicidade pela autoridade da Igreja, a pessoa pode receber o título de:
Venerável.
Assim, de maneira simplificada:
Servo de Deus → investigação
Venerável → reconhecimento das virtudes heroicas
Mas ainda não chegamos à beatificação.
Um Venerável já pode receber culto público como santo?
Não da mesma maneira que um Beato ou Santo.
O título reconhece um passo muito importante da causa, mas a beatificação ainda não aconteceu.
Normalmente é justamente nesse ponto que a questão do milagre ganha especial importância.
O que é um mártir?
Martírio não significa simplesmente morrer tragicamente.
Também não significa morrer realizando uma boa ação.
No sentido utilizado nas causas dos santos, existem critérios próprios para reconhecer o martírio cristão.
De maneira geral, envolve a morte sofrida por causa de Cristo ou da fé cristã, com elementos que precisam ser cuidadosamente demonstrados.
A Igreja investiga tanto a atitude do mártir quanto as circunstâncias e motivações relacionadas à perseguição.
Todo cristão assassinado é automaticamente mártir?
Não.
Imagine um cristão morto durante um assalto.
O fato de ser cristão não transforma automaticamente sua morte em martírio.
Para uma causa de martírio é necessário investigar por que aquela pessoa foi morta e em quais circunstâncias.
A morte precisa possuir relação com aquilo que a Igreja reconhece como martírio cristão.
O mártir precisa ter praticado todas as virtudes heroicamente?
A lógica da causa de martírio é diferente da causa baseada na heroicidade das virtudes.
O martírio é considerado um testemunho supremo de fidelidade a Cristo.
Por isso existe uma via própria para sua investigação.
Ainda assim, a vida e as circunstâncias da pessoa são estudadas cuidadosamente.
Não basta simplesmente afirmar:
"Foi mártir."
Isso precisa ser demonstrado pela causa.
Mártir precisa de milagre para ser beatificado?
Aqui encontramos uma das diferenças mais conhecidas.
Normalmente, quando o martírio é reconhecido, não se exige um milagre para a beatificação.
O reconhecimento do martírio permite avançar para a beatificação segundo as normas aplicáveis.
Mas atenção:
isso não significa necessariamente que nenhum milagre será necessário para a canonização posterior.
Para chegar à canonização, normalmente será necessário um milagre atribuído à intercessão do Beato ocorrido depois da beatificação, salvo decisão ou dispensa pontifícia em situações específicas.
O que é a oferta da vida?
Desde 2017 existe formalmente outra via:
a oferta da vida.
Ela foi estabelecida pelo Papa Francisco através do documento Maiorem hac dilectionem.
Essa via é diferente tanto do martírio quanto da heroicidade das virtudes.
Que tipo de situação pode ser oferta da vida?
O documento estabelece critérios específicos.
Entre eles estão:
- oferta livre e voluntária da própria vida;
- aceitação heroica, por caridade, de uma morte certa e próxima;
- relação entre a oferta da vida e a morte prematura;
- exercício das virtudes cristãs pelo menos em grau ordinário antes da oferta e até a morte;
- fama de santidade e de sinais.
Portanto, não basta alguém morrer salvando outra pessoa.
É necessário investigar todo o contexto à luz dos critérios estabelecidos pela Igreja.
Oferta da vida exige milagre?
Sim.
Esse detalhe é muito importante.
O documento que estabeleceu essa via determina a necessidade de um milagre para a beatificação, ocorrido depois da morte do Servo de Deus e atribuído à sua intercessão.
Portanto, temos uma diferença importante:
Martírio reconhecido → normalmente não exige milagre para beatificação.
Oferta da vida → exige milagre para beatificação.
E na via das virtudes heroicas?
Normalmente, depois do reconhecimento das virtudes heroicas, é necessário o reconhecimento de um milagre atribuído à intercessão do Venerável para que ocorra a beatificação.
Assim chegamos a um quadro bastante útil:
| Via | Milagre normalmente necessário para beatificação? |
|---|---|
| Virtudes heroicas | Sim |
| Martírio | Não |
| Oferta da vida | Sim |
Existem particularidades jurídicas e decisões pontifícias que podem afetar casos concretos, mas essa é a estrutura geral.
O que é considerado um milagre?
Nem todo acontecimento surpreendente é automaticamente declarado milagre.
Nas causas dos santos, os casos mais conhecidos são curas.
Uma cura apresentada como possível milagre precisa passar por investigação própria.
É importante separar duas perguntas:
A medicina consegue explicar adequadamente o que aconteceu?
e:
Existe relação entre o acontecimento e a intercessão daquela pessoa?
São questões diferentes.
Quem analisa uma possível cura milagrosa?
O processo não consiste simplesmente em um religioso olhar um prontuário e declarar:
"Foi milagre."
Existe análise especializada.
Documentos médicos são reunidos.
O caso é examinado por especialistas.
Depois existem também avaliações teológicas sobre a relação da possível graça com a intercessão invocada.
Portanto, há uma dimensão científica/médica e outra teológica.
Os médicos precisam dizer "foi Deus"?
Não.
Essa distinção é essencial.
O papel médico não é fazer uma declaração teológica.
A análise procura verificar aspectos como diagnóstico, prognóstico, tratamento e evolução da cura, e se existe explicação científica suficiente para o resultado observado.
A conclusão teológica pertence a outra etapa.
Uma cura inexplicável já é automaticamente milagre?
Não.
Inexplicável para a medicina e milagre reconhecido pela Igreja não são exatamente a mesma coisa.
Uma avaliação positiva do aspecto científico é uma etapa importante.
Depois ainda existe o exame teológico e o processo próprio da Igreja.
O que os teólogos analisam?
Entre outras questões, procura-se estabelecer se a graça foi pedida por meio da intercessão específica do candidato.
Imagine que uma família esteja rezando simultaneamente para dez santos diferentes.
Isso pode dificultar estabelecer a relação específica exigida pela causa.
Por isso a documentação sobre como ocorreu a oração também pode ser relevante.
Um milagre pode ser rejeitado?
Sim.
Uma suposta cura pode não avançar.
Isso pode acontecer, por exemplo, se houver explicação médica suficiente, documentação inadequada ou dificuldades em demonstrar a relação necessária com a intercessão invocada.
A rejeição de um caso não significa necessariamente que nada extraordinário tenha acontecido.
Significa que aquele acontecimento não pôde ser reconhecido segundo os critérios exigidos para a causa.
Depois do milagre vem a beatificação?
Quando todos os requisitos da causa foram cumpridos e as aprovações necessárias são dadas, pode ocorrer a:
beatificação.
A pessoa passa então a ser chamada de:
Beato ou Beata.
Qual é a diferença entre Beato e Santo?
A beatificação permite culto público segundo as condições determinadas pela Igreja, frequentemente relacionado a determinados lugares, comunidades ou contextos.
A canonização possui alcance universal.
Com a canonização, a pessoa é proposta à Igreja universal como santa.
Para ser canonizado normalmente é necessário outro milagre?
Em causas que passaram pela beatificação, normalmente se exige outro milagre para a canonização.
Esse milagre deve, em regra, estar associado à intercessão do Beato e ocorrer depois da beatificação.
Assim, na via comum das virtudes heroicas, muitas pessoas resumem o processo dizendo:
um milagre para beatificação + outro para canonização.
Essa é uma boa regra geral, mas não deve ser transformada em fórmula absoluta para todas as causas.
E os mártires?
No caso dos mártires, a estrutura geral é diferente:
martírio reconhecido → beatificação sem necessidade ordinária de milagre
e depois:
milagre após a beatificação → canonização, normalmente.
Isso explica por que às vezes ouvimos que determinado mártir foi beatificado sem a aprovação de um milagre.
Quem toma a decisão final?
O Dicastério para as Causas dos Santos estuda e apresenta as causas segundo o procedimento estabelecido.
Mas a decisão final relacionada à beatificação e, especialmente, à canonização pertence ao Papa.
A canonização é um ato solene do Romano Pontífice.
O Papa participa de cada investigação médica?
Não dessa maneira.
Existem diferentes instâncias especializadas ao longo do processo.
Especialistas históricos, teólogos, médicos e membros do Dicastério possuem funções próprias.
O Papa recebe o resultado do processo e toma as decisões que lhe competem.
Canonização é uma votação de popularidade?
Não.
Ter milhões de devotos não substitui o processo.
Popularidade pode existir junto com verdadeira fama de santidade, mas são coisas diferentes.
Uma pessoa extremamente conhecida pode nunca ser canonizada.
Outra quase desconhecida durante sua vida pode posteriormente ter sua santidade reconhecida.
Dinheiro pode comprar uma canonização?
Não legitimamente.
Uma causa possui custos reais:
- documentação;
- pesquisas;
- arquivos;
- especialistas;
- traduções;
- trabalho técnico;
- administração.
Existem normas sobre esses custos e sobre a administração dos recursos.
Mas financiar uma causa não significa comprar um resultado favorável.
A investigação pode concluir que os requisitos necessários não foram demonstrados.
O processo pode ser interrompido?
Sim.
Uma causa pode permanecer parada durante muito tempo ou não avançar se surgirem problemas, falta de documentação ou ausência dos elementos necessários.
Abrir uma causa não garante canonização futura.
Existem santos canonizados sem o processo moderno?
Sim.
A história da canonização é muito mais antiga do que o procedimento atual.
Nos primeiros séculos do cristianismo, especialmente os mártires eram venerados pelas comunidades cristãs.
Ao longo dos séculos, a disciplina foi sendo progressivamente centralizada e formalizada.
Por isso não podemos pegar o procedimento atual e imaginar que todos os santos dos primeiros séculos passaram exatamente pelas mesmas etapas.
Não passaram.
Por que a Igreja tornou o processo tão rigoroso?
Porque declarar alguém santo é algo muito sério.
A pessoa será apresentada como exemplo de vida cristã.
Sua intercessão será publicamente invocada.
Igrejas podem receber seu nome.
Sua memória pode entrar na liturgia.
Milhões de pessoas poderão conhecer sua história.
Por isso a investigação procura alcançar aquilo que os documentos da Igreja chamam de verdade sobre a causa.
Servo de Deus, Venerável, Beato e Santo: resumo
Podemos visualizar assim:
SERVO DE DEUS
A causa está formalmente em investigação.
↓
VENERÁVEL
Nas causas de virtudes, houve reconhecimento da heroicidade das virtudes.
↓
BEATO
A beatificação foi autorizada após o cumprimento dos requisitos próprios da causa.
↓
SANTO
A canonização foi proclamada pelo Papa.
Mas lembre-se:
essa sequência precisa ser entendida com as particularidades das diferentes vias, especialmente no caso dos mártires e da oferta da vida.
Resumo das três principais vias
Virtudes heroicas
A pessoa viveu de maneira heroica as virtudes cristãs.
Normalmente:
virtudes heroicas → Venerável → milagre → beatificação → novo milagre → canonização.
Martírio
A pessoa sofreu verdadeiro martírio cristão.
Normalmente:
reconhecimento do martírio → beatificação → milagre posterior → canonização.
Oferta da vida
A pessoa ofereceu livremente sua vida por amor cristão nas condições estabelecidas pela Igreja.
Normalmente:
reconhecimento da oferta da vida + milagre → beatificação → requisitos para canonização.
Então os milagres "provam" que alguém é santo?
É melhor evitar essa simplificação.
Os milagres possuem uma função específica dentro do discernimento realizado pela Igreja.
Eles são considerados sinais associados à intercessão do candidato ou do Beato.
Mas o processo não ignora a vida da pessoa.
Por isso existem investigações diferentes:
vida e virtudes, martírio ou oferta da vida
e
presumíveis milagres.
Inclusive, a legislação determina que a investigação sobre supostos milagres seja feita separadamente daquela sobre virtudes ou martírio.
Por que conhecer esse processo é importante?
Porque ajuda a desfazer duas ideias equivocadas.
A primeira:
"A Igreja simplesmente escolhe alguém e declara santo."
Não é assim.
A segunda:
"Se houve uma cura inexplicável, a pessoa automaticamente vira santa."
Também não.
Existe um processo longo de discernimento, investigação e julgamento.
Qual é o objetivo final de reconhecer os santos?
O objetivo não é criar celebridades religiosas.
Os santos são apresentados como testemunhas de que o Evangelho pode realmente ser vivido.
Suas vidas são diferentes.
Alguns morreram mártires.
Outros viveram décadas servindo silenciosamente.
Alguns fundaram grandes obras.
Outros praticamente não deixaram bens materiais.
O elemento comum é Cristo.
Como explicamos em outro artigo:
Por que os católicos pedem a intercessão dos santos?
A veneração dos santos não substitui a adoração a Deus.
O santo deve apontar para Cristo.
E quem é o centro da santidade cristã?
Jesus Cristo.
A santidade cristã não consiste simplesmente em ser uma pessoa extraordinária.
Consiste fundamentalmente em união com Deus e resposta à sua graça.
Para aprofundar:
Quem é Jesus Cristo segundo a fé católica?
Conclusão
O processo de canonização da Igreja Católica é muito mais complexo do que simplesmente:
"aconteceram dois milagres e a pessoa virou santa."
Existem diferentes vias.
A Igreja pode investigar:
heroicidade das virtudes;
martírio;
ou oferta da vida.
Existe uma fase local e uma fase de estudo junto à Santa Sé.
Documentos são analisados.
Testemunhas podem ser ouvidas.
Historiadores e teólogos podem participar.
Supostos milagres possuem investigação própria e podem envolver especialistas médicos.
Mártires possuem particularidades importantes e normalmente não precisam de milagre para a beatificação.
A oferta da vida, por sua vez, constitui uma via distinta e exige milagre para a beatificação.
E, no final de todo esse caminho, a canonização não pretende transformar uma pessoa em santa.
Pretende reconhecer solenemente aquilo que a Igreja, depois do processo previsto, entende poder afirmar sobre aquela pessoa.
Por trás de cada nome colocado diante da palavra:
São
ou:
Santa
pode existir uma história de décadas de investigação.
E, muito antes dos documentos e processos, existe aquilo que realmente importa:
uma vida que procurou seguir Jesus Cristo.
Referências
- Santa Sé — Constituição Apostólica Divinus Perfectionis Magister: legislação sobre as Causas dos Santos
- Santa Sé — Normas para observar na instrução diocesana das Causas dos Santos
- Santa Sé — Sanctorum Mater: Instrução para os Inquéritos Diocesanos nas Causas dos Santos
- Papa Francisco — Maiorem hac dilectionem: sobre a oferta da vida
- Santa Sé — Dicastério para as Causas dos Santos




